02/02/2012

Casarão da célebre Marquesa de Santos é restaurado

Não satisfeita com os sete anos em que viveu o papel de amante de dom Pedro I no Rio de Janeiro, Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, mudou-se para São Paulo em 1829, quando seu caso com o imperador chegou ao fim, e seguiu no altíssimo nível de relacionamentos: casou-se com Rafael Tobias de Aguiar, bom partido que era nada menos que uma espécie de governador do estado na época. Coincidência ou não, ela decidiu morar bem ao lado do trabalho do novo amor, que despachava no palácio oficial erguido onde hoje está o Pátio do Colégio. Comprou então um imóvel na Rua do Carmo, hoje chamada Roberto Simonsen. O Palacete do Carmo, ou Solar da Marquesa de Santos, fervia. Era palco de tradicionais eventos sociais e animadas festas. Também se realizavam ali reuniões beneficentes, já que Domitila tinha uma associação de apoio a prostitutas e mães solteiras, e saraus literários que contaram com a participação de poetas como Castro Alves.

Após sua morte, em 1867, o endereço acabou descaracterizado. Em 1909, o imóvel foi adquirido pela The São Paulo Gaz Company, que demoliu paredes, janelas e portas, além de alterar o desenho do telhado. O tombamento veio somente em 1971, quando não restavam mais vestígios de parte da arquitetura original.

De lá para cá, inúmeros projetos de restauro foram prometidos pelo poder público. Na prática, o edifício ficou esquecido e se deteriorou. “As calhas do telhado já se haviam oxidado, e isso ocasionara vazamentos e infiltrações que comprometiam algumas paredes feitas de taipa”, explica Regina Ponte, diretora do Museu da Cidade, que funciona em determinadas salas do imóvel desde 1993. Esse quadro decadente começou a ser revertido nos últimos três anos, com um projeto de obras financiado por um empréstimo de 3,5 milhões de reais do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O prédio reformado será aberto para visitação pública no próximo sábado (19).

A mostra foi dividida em três partes, espalhadas por treze cômodos: uma sobre a Rua do Carmo e os entornos, outra a respeito da vida da antiga proprietária e, como não poderia deixar de ser, um espaço para lembrar a tórrida história de amor entre ela e dom Pedro I, por meio de cartas enviadas pelo imperador, que as assinava como “Demonão” e chamava a amante de “Titília”.


UM MUSEU DE FOTOS

Bem ao lado do Solar da Marquesa, o paulistano poderá conferir outra novidade que está saindo do forno da Secretaria Municipal de Cultura. Na chamada Casa Nº 1, também reformada recentemente, funcionará a Casa da Imagem, espaço que sediará exposições de artistas e fotógrafos que usam São Paulo como matéria-prima para seus registros. “Serão três salas em que vamos exibir o que há de melhor no acervo iconográfico da cidade”, explica Henrique Siqueira, gestor do museu. A inauguração será feita com uma mostra sobre Guilherme Gaensly (1843-1928), um dos mais respeitados fotógrafos de seu tempo. Ele registrou com maestria um centro ainda movido a charretes e bondes. Na abertura, será feito também o lançamento de um livro sobre o autor, montado pela editora Cosac Naify.

OBS: vale a pena uma visita, a entrada nos locais é gratuita.
Reportagem original:
http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2243/casarao-da-celebre-marquesa-de-santos-restaurado

26/01/2012

Casas em processo de Tombamento vão ao chão

VANESSA CORREA DE SÃO PAULO
 
Apesar de protegido por processo de tombamento, um conjunto de quatro sobrados dos anos 1940 veio ao chão na quinta passada em Perdizes, zona oeste paulistana.

As casas faziam parte de um estudo do Conpresp (órgão do patrimônio histórico municipal), aberto em setembro. No processo, 63 imóveis do bairro seriam avaliados e poderiam ser tombados.


Os sobrados demolidos na rua Monte Alegre com a Turiassu estavam no processo "por se tratar de um tipo de ocupação que predominou no período entre 1940 e 1950, antes da verticalização da região", segundo o Conpresp.
O dono, Carlos Manoel dos Santos Eloy Rodrigues Pereira, 58, afirma que não havia sido comunicado sobre a abertura de tombamento e que tinha o alvará de demolição. "Então, eu quero que vão para o raio que os parta".
Ele diz que o conjunto foi construído pelo seu avô para obter renda com o aluguel, "como fazia todo português". Afirma que vai construir um prédio, também para locação.
O Conpresp diz que, como não havia autorizado a demolição, ela é irregular, e, "constatados os danos", o proprietário pode ser multado.
A multa pode chegar a até dez vezes o valor do imóvel. O Conpresp pode ainda pedir o embargo de obras no local.
O poder do órgão, porém, é limitado. Muitos proprietários recorrem, alegando não ter sido informados sobre o tombamento ou questionando os valores das multas.
Grande parte delas não são pagas -os multados ameaçam ir à Justiça devido à fragilidade das autuações.

Os conselheiros do Conpresp, que devem votar pela aplicação, temem responsabilidade judicial, segundo apurou a Folha.
O orçamento para 2011 vindo do fundo de multas é de R$ 800 mil. Mas o valor de autuações é bem maior: só o dono de um imóvel, no Brás, foi multado em mais de R$ 20 milhões.
O processo de aplicação foi revisado e será enviado "em breve" à Câmara, diz o órgão.
Destruição do patrimônio é ainda crime com pena de até três anos de reclusão, segundo a Lei de Crimes Ambientais.
Outro caso, bastante conhecido, foi o da mansão Mataraz-zo, na av. Paulista, tombada em 1989. Tempos depois, bombas explodiram no subsolo e suas estruturas foram comprometidas por vazamentos.
Os donos conseguiram, então, reverter na Justiça o tombamento e demoliram o imóvel.

Dúvidas sobre tombamento
1 - Imóveis tombados podem ser modificados?
Sim, mas só com autorização do órgão de patrimônio competente, como o Conpresp. Mudanças não autorizadas estão sujeitas a punição
2 - Qual é a punição para quem demole um imóvel tombado ou em processo de tombamento?
Embargo de qualquer obra no terreno e multa, que pode chegar a dez vezes o valor do imóvel. A destruição de patrimônio histórico também é crime, com pena de até três anos de reclusão


Análise

Desrespeito é duplo, porque inclui a lei e também a vontade dos moradores
NADIA SOMEKH ESPECIAL PARA A FOLHA

Nos anos 70, com o boom imobiliário advindo do BNH, que financiava as duas pontas da indústria da construção civil (a produção e a venda dos apartamentos), assistimos como corolário a destruição maciça do nosso patrimônio histórico edificado.
A criação do DPH (Departamento de Patrimônio Histórico), na mesma época, e do Conpresp, em 1985, possibilitou uma reação positiva ao furor de demolição.
A criação das Z8-200, modalidade do zoneamento/tombamento, em 1975, permitiu um começo de proteção à nossa memória, mas carecemos ainda de política efetiva de preservação dos bens culturais, não só com instrumentos mais eficazes e incentivadores, prevendo penalidades adequadas, mas também com uma conscientização mais ampla da sociedade e dos empreendedores imobiliários.
Não podemos congelar a cidade, e valorizar o contemporâneo significa modernizar, dar lugar ao belo, que inclui, essencialmente, nossa memória.
É com tristeza que assistimos a destruição de um conjunto de casas da década de 1940, em processo de tombamento a pedido da própria população de Perdizes.
Isso significa um duplo desrespeito: com o conselho e com a lei, que prevê punição de crime, e com a população, que tenta defender sua história.
Ficamos mais pobres culturalmente quando perdemos nossa história. Essa frase vem se repetindo recorrentemente nas cidades e, principalmente, em São Paulo. "Da força da grana que ergue e destrói coisas belas", como canta Caetano em "Sampa".

NADIA SOMEKH é professora da FAU Mackenzie e conselheira do Conpresp

Reportagem original da Folha de São Paulo:
https://acesso.uol.com.br/login.html?dest=CONTENT&url=http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/14615-casas-em-processo-de-tombamento-vao-ao-chao.shtml&COD_PRODUTO=7