23 de mai de 2010

O tempo não pára...

Chuvas em volumes nunca antes registrados, trazendo em seu rastro enchentes e deslizamentos. Temperaturas nas alturas, acumulando recordes - um dos verões mais quentes das últimas décadas. Dias que, por certo, serão lembrados mais pelo excessos de calor (hemisfério sul) e frio (hemisfério norte) e pelas tempestades - principalmente frente a construções como as nossas, ainda pouco adaptadas às instabilidades climáticas.

"Eles sempre se mostraram interessados no assunto. Mas atualmente querem saber detalhes, se certificar de que a casa vai mesmo funcionar em boas condições de conforto térmico", diz o arquiteto Lourenço Gimenes, do escritório Forte, Gimenes & Marcondes Ferraz (FGMF), profissional que vem se acostumando a abordar assuntos como ventilação cruzada e eficiência energética nos encontros com seus clientes.

Sempre preocupado com o desempenho global dos seus projetos, Gimenes afirma que, muitas vezes, são os fatores climáticos, mais do que elementos de ordem estética, que determinam as linhas gerais dos trabalhos da FGMF. A novidade é o interesse, e a preocupação, que os moradores têm demonstrado pelo tema. "Da localização das janelas, passando pelos elementos de proteção e de isolamento, eles querem saber de tudo", relata o arquiteto, para quem, em se tratando de conforto térmico, não existe uma solução padrão, mas procedimentos que devem ser observados constantemente.

Posicionar a casa corretamente no terreno, de preferência com os ambientes que devem ser mais intensamente iluminados voltados para a face norte, e conhecer bem as características de insolação, sobretudo o ângulo de incidência dos raios solares, e o regime de ventos locais, são, segundo ele, critérios básicos para se dar início a qualquer projeto. No mais, tudo vai depender da habilidade de cada profissional em se adequar às condições locais.

Uma opinião compartilhada, em número e grau, pelo arquiteto Ricardo Julião, para quem as mais elevadas expressões construtivas da história da arquitetura são aquelas que guardaram estreita relação com seu entorno. "A transposição pura e simples de modelos de outros países, como as casas neoclássicas, normalmente sem beirais, ou os chalés alpinos, com telhados inclinados, são mais que aberrações estéticas. São soluções inadequadas ao nosso clima", dispara ele.

Diante da ameaça de aquecimento global, Julião acredita que construções pouco eficientes em termos de desempenho térmico podem significar não apenas perda de qualidade de vida para seus habitantes mas um risco para todo o ambiente - na medida em que, um aumento de consumo causado pela adoção indiscriminada de aparelhos de ar-condicionado, por exemplo, colabora para a criação de mais e mais usinas hidrelétricas ou termoelétricas (fontes de energia sabidamente capazes de acarretar grande impacto ambiental).

"Entre as consequências mais evidentes da urbanização acelerada, temos a formação de condições climáticas particulares, verdadeiros micro-climas, resultado direto da atividade humana sobre a natureza. É preciso ficar atento aos riscos de inundações e desmoronamentos, mesmo na cidade", alerta Julião. Segundo o arquiteto, a perda da camada vegetal - superfície natural de drenagem - é um dos desafios a serem enfrentados.

Assim, uma configuração residencial ideal seria aquela capaz de minimizar ao máximo seu impacto sobre o microclima e mais adaptada às condições de insolação e ventilação. "O conforto é obtido a partir da manipulação de um complexo conjunto de fatores: temperatura, umidade, circulação de ar e radiação solar. É a dosagem correta desses parâmetros que produz sensações térmicas agradáveis ou não", explica Rodrigo Marcondes Ferraz, outro sócio da FGMF.

Caminhos do sol. A incidência de luz solar é o item que mais influencia o ganho térmico nas edificações, variando em intensidade de acordo com as aberturas e os materiais construtivos utilizados. Segundo Marcondes Ferraz, existem alguns casos em que a incidência dos raios de sol se dá quase perpendicularmente à fachada. Por vezes é necessário até mesmo obstruir essas aberturas por completo, bloqueando até mesmo a luz natural.

"Costumo dizer a meus clientes que o importante é controlar o excesso de radiação solar nos ambientes. Uma vez que o calor entrou, conter o avanço da temperatura acaba sendo muito mais trabalhoso. E bem mais custoso", alerta Ricardo Julião. Como elementos de proteção, ele aconselha, além dos vidros de última geração, que filtram a luz, telhados com beirais pronunciados e brise-soleils.

Utilizados para impedir a incidência direta de radiação solar nos interiores de um edifício, os brises foram bastante explorados pela arquitetura modernista, onde aparecem construídos em concreto, madeira e alumínio. Normalmente formados por uma série de lâminas, móveis ou não, eles devem ser posicionados frente às aberturas. Quando móveis, permitem aumentar (ou diminuir) a entrada dos raios solares no recinto.

"A insolação intensa é, aparentemente, a maior causa do desconforto térmico. Mas o problema, muitas vezes, começa bem antes", afirma Marcondes Ferraz. "É preciso se ocupar do assunto ainda na fase de construção. Paredes de maior espessura, feitas de tijolos cerâmicos, são isolantes térmicos naturais. Para os telhados, é sempre interessante optar por forros, isolantes ou mesmo telhas térmicas", pontua. Para as fachadas sujeitas à insolação intensa, ele aconselha a pintura em cores claras.

A curva dos ventos. Uma boa condição de ventilação é essencial para se atingir níveis satisfatórios de conforto nos interiores. O deslocamento do ar através de aberturas - umas funcionando como entrada, outras como saída - pode, desde que bem planejado, proporcionar resfriamento adicional aos ambientes. "É interessante sempre trabalhar com a ventilação cruzada, prevendo a circulação do ar de acordo com a posição das aberturas e o regime de ventos do local - convergentes para uso nos meses mais quentes, mas com possibilidade de fechamento durante os mais frios", explica Marcondes Ferraz.

Por fim, existem dois recursos, agradáveis aos cinco sentidos, que podem bem ser empregados para aprimorar a sensação de frescor: a instalação de espelhos d’água e jardins em áreas próximas às aberturas, o que inclui árvores de maior porte, que, além de sombrear, ajudam a reduzir ruídos externos e atuam como um espécie de filtro, captando a poeira.

Mas, para conseguir os melhores resultados, é necessário sempre se levar em conta a forma e as características de desenvolvimento de cada planta, tanto no verão, quanto no inverno. Segundo os profissionais, uma boa dica é optar por árvores com folhas caducas, vegetação que, além de oferecer sombreamento sem bloquear a luz natural no verão, possibilita plena incidência de luz no inverno - período de queda das folhas.

Como se vê, fazer as pazes com o clima, ao contrário do que parece, não é missão impossível. Mesmo quem já construiu pode desfrutar de dias de conforto com a adoção de medidas simples. Para ajudar na tarefa, o Casa apresenta (na pág. anterior) dicas e soluções de projeto de eficácia comprovada quando o assunto é garantir melhores condições térmicas entre quatro paredes - e pelos próximos invernos e verões.

OBS:
reportagem do suplemento Casa & Sustentabilidade, publicado no Jornal O Estado de São Paulo em 25/04/2010. Para acessar a reportagem original, clique no título do post.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para dúvidas, sugestões, comentários ou qualquer outra informação que achar importante, deixe sua mensagem aqui!